Existe realmente o certo e o errado

Num mundo em que vivemos hoje, onde tantas pessoas tem acesso a internet, vemos gente de todos os tipos, com crenças e valores, formações e conclusões próprias da vida, do universo e tudo mais. É possível observar facilmente um constante e quase infinito número de encontros onde as ideias se divergem. Os assuntos vão desde a política, passando as vezes pela sexualidade, assim como os temas religiosos que estão sempre ali entre outras tantas.

E desse conjunto arbitrário de formas de ver o mundo surgem tentativas para explicar tanto o próprio mundo quanto os acontecimentos e fenômenos nele presentes ou não, sejam eles originalmente humanos ou não. Mas será que tudo é questão de opinião? Será que existe mais de uma resposta para tudo?

A resposta é simples e curta. Claro que não!

Ao que parece, a quantidade massiva de problemas na contemporaneidade tornaram o uso da razão, e qualquer tentativa de buscar soluções racionalmente pensadas e argumentadas, num simples jogo de afirmações e contra-afirmações, onde não há um ponto de partida único. A verdade das conclusões depende inteiramente de onde se parte, no entanto, esse local de partida é livre de critérios. A exemplo do debate entre esquerda e direita: um preza pela igualdade e o outro pela liberdade acima de tudo. Porém, seria possível uma opção lógica por uma das duas? Há parâmetros racionais para que a igualdade supere e liberdade ou o contrário? Como pode a inteligência produzir duas ou mais respostas completamente contrárias? Chegamos num momento em que é impossível dizer algo que não seja refutável em algum momento?

O termo da nossa era é a “pós-verdade”. Isso significa que temos um novo tipo de afirmação de conhecimento que não se baseia em fatos, mas ao mesmo tempo fala sobre fatos, sendo assim, é uma afirmação falsa, uma mentira que ganha conotação de verdade, num processo forçado de negação da realidade. Essa “verdade”, que é uma falsidade, se molda aos confortos de quem deseja ter qualquer crença. Não penso que isso seja novo, talvez esteja se espalhando e ganhando força, no entanto, sempre houveram aqueles que preferiam muito mais crer no que lhes era mais confortável do que buscar pela verdade. Mas o fato é que esse novo tipo de “saber” não se limita às pretensões dos indivíduos. A pós-verdade adentra o universo público e esmaga, muitas vezes, os fatos comprovados. Aquilo que os estudiosos do comportamento chamam de viés da confirmação jamais foi tão perigoso. Na verdade, já, tivemos o nazismo na Alemanha. Mas hoje, temos um dos homens mais poderosos do mundo como um adepto dessa novo estilo de vida alimentado pela falta de apego e respeito ao verdadeiro.

Não podemos, sobretudo, esquecer os problemas que uma vida baseada em falsidades pode trazer. A negação do aquecimento global, as tentativas de se endemoniar as vacinas, os discursos políticos que visionam o que seria o “melhor”, mas que ao mesmo tempo pautam-se em mentiras forjadas e compartilhadas milhares de vezes pela população irreflexiva são exemplos do que pode ser gerado. Não se engane pobre leitor, você não está para além dessas atrocidades. Com um simples descuido, aquilo que temos como certo e claro, pode nos cegar de vez e permitir que creiamos em coisas ridículas e em falsidades perigosas.

É preciso que se tenha sempre em mente que existe o certo e o errado, a verdade e a mentira, a razão e a opinião. Para cada ação há uma finalidade, como pensava Aristóteles, para cada finalidade há inúmeras ações que me possibilitam efetivar melhor essa finalidade. Por exemplo, o melhor cominho para uma determinada sociedade é aquilo que supera todas as opções numa consideração ampliada dos indivíduos que compõem essa comunidade, e não aquilo que alguém prefere num ponto particular de aferição, tomando-a por verdade sem questioná-la jamais. O que acontece no meio disso tudo é que as pessoas fecham-se no mundo das opiniões e esquecem da busca pela verdade e pelo certo. Dizem: “Ora, mas essa é sua opinião, e essa é a minha”. Ok, as opiniões devem ser respeitadas, você pode pensar o que quiser, mas tal forma de solucionar os problemas do mundo não pode ser estimulada.

É preciso que se tenha em mente a forma mais honesta e lúcida de resolver e explicar as coisas. Os obstáculos que envolvem a luz da verdade devem ser derrubados e, se há no mundo algo que tenha como destino principal a verdade, honestidade e lucidez, essa coisa é a ciência, então, é interessante ver o mundo do ponto de vista científico para que se alcance a perspectiva correta. Assim também é outra ferramenta que abarca o que as ciências não tem capacidade de alcançar, que é o pensamento filosófico, ele permite o questionamento das coisas que pensamos ser óbvias, mas que na verdade não são. Pois, só por meio da busca pela verdade podemos conquistar a iluminação intelectual sobre o mundo que nos cerca. Entendendo como a vida o universo e tudo mais se conectam e são partes ativas nas nossas transformações pessoais, podemos nos proteger da escuridão e das armadilhas ilusórias  que pairam no desconhecido.

Essa busca pela verdade, opõem-se absolutamente à opinião. Como fala Bachelard (1996) no seu livro: A Formação do Espírito Científico: Pois, se uma determinada questão utilizar uma opinião como reposta, ela o faz por motivos de quem originou à opinião, assim, a opinião está por direito SEMPRE ERRADA. A opinião não pensa, ela assume os moldes de quem a necessita, traduz necessidades em conhecimento.

O que ocorre é principalmente a chamada “preguiça mental”, a mãe de toda ignorância e  preconceito, a falta de exercícios cerebrais das pessoas que alimentam tal estilo de vida é um desrespeito a um órgão tão maravilhoso. Uma obra evolutiva como o encéfalo ser tão mal aproveitado deveria ser um crime. Poderíamos aqui citar esse repouso encefálico como fonte das circunstâncias, alguém que não teve acesso a fontes de conhecimento ou que teve uma educação reprimida, mas não, essa resguarda é mesmo uma acomodação, fonte da preguiça e covardia, como diria Kant. É fácil observar que, dependendo da situação em que está envolvido, o indivíduo analisa mesmo que inconscientemente as suas necessidades e, daí, desenvolve pensamentos e conclusões do mundo que o cerca. Só que essas conclusões estão intimamente relacionada as suas necessidades pessoais, há uma fuga da racionalidade, ou de outra forma, a racionalidade é empregada segundo fins pré-estabelecidos, o emocional se torna o fator principal, busca-se muitas vezes o método que provoque menor fadiga para explicar as coisas.

Muitos dos problemas que vemos na acomodação está conectado também com características bem específicas da própria natureza humana, a exemplo do nosso caráter comunitário e também individualista. Hora nos esquecemos de pensar por nós mesmo na busca da aceitação de um grupo, hora rejeitamos pensar de outra forma, na tentativa de se firmar como indivíduo, mas nem sempre uma está desvinculada a outra. Muitas vezes o individualismo se estabelece na tentativa de proteção do grupo, outras vezes o comunitarismo se dá por um pensamento egoísta. Podemos ver aqui a complicação que geramos. Essa relação puramente contraditória e desonesta é responsável por grandes problemas.

Então, o que não é opinião?

Segundo Bachelard: O espírito científico proíbe que tenhamos uma opinião sobre questões que não sabemos formular com clareza. Em primeiro lugar, é preciso saber formular problemas. E, digam o que disserem, na vida científica os problemas não se formulam de modo espontâneo. É necessário então que se façam as perguntas corretas, pois, todo conhecimento é resposta a uma pergunta. Se não há pergunta, não pode haver conhecimento científico. Nada é evidente. Nada é gratuito. Tudo é construído.

O obstáculo para o conhecimento, ganha forças e se incrustar no conhecimento não questionado. É necessária a constante reativação do espírito questionador. Bergson diz : “Nosso espírito tem a tendência irresistível de considerar como mais clara a ideia que costumamos utilizar com frequência”.

O conhecimento é feito através dos sentidos, das experiências, só que, a verdade tem um outro caminho. Como diz Bachelard: Sem o equacionamento racional da experiência determinado pela formulação de um problema, sem o constante recurso a uma construção racional bem explícita, pode acabar surgindo uma espécie de inconsciente do espírito científico que, mais tarde, vai exigi uma lenta e difícil psicanálise para ser exorcizado. Mas essa inconsciência pode atingir também pensamentos científicos. É preciso reavivar a crítica e pôr o conhecimento em contato com as condições que lhe deram origem, voltar continuamente a esse “estado nascente” que é o estado de vigor psíquico, ao momento em que a resposta saiu do problema. Para que, de fato, se possa falar de racionalização de experiência, não basta que se encontre uma razão para um fato. A razão é uma atividade psicológica essencialmente politrópica: procura revirar os problemas, variá-los, ligar uns aos outros, fazê-los proliferar. Para ser racionalizada, a experiências precisa ser inserida num jogo de RAZÕES MÚLTIPLAS.

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Temos como exemplo as revoluções científica, tão bem apresentadas por Tomas Kuhn, que nos fala sobre uma pesquisa racional de se da na tradição científica, onde o presente repensa e transcende o passado, que em seguida será transcendido pelo futuro, gerando com esse processo um acumulo de erros e falhas, superadas e corrigidas, encaminhando-se para um ponto mais próximo do destino, a verdade.

Podemos concluir dessa forma, percebendo a força e importância do pensamento de Bachelard, que a construção do conhecimento científico se dá assim que, para uma mesma situação, objeto ou acontecimento, são postas razões múltiplas. Seja num mesmo período, ou durante várias gerações, o ser humano põe em tudo que o cerca, visões diferenciadas, novas explicações, e essas vão sendo reconstruídas e reformuladas a medida que se conhece mais aquilo que se observa, aprofunda-se dessa maneira o conhecimento em relação ao fato estudado. Ora, quem pode falar melhor sobre as inter-relações entre as várias espécies de seres vivos, que um biólogo? Quem pode aplicar a matemática e a física aos acontecimentos astronômicos melhor que o astrônomo? Quem pode projetar, selecionar materiais e construir um prédio melhor que um engenheiro? Pois assim dizendo, percebemos que a verdade dos fatos está no aprofundamento do conhecimento, este anteriormente posto sob visões variadas sobre aquele determinado assunto. Se queres ver, entender e explicar o mundo, conheça-o. Como demonstra nosso amigo Renato no texto :Esse filme é uma merda mais eu gosto, você pode não gostar de uma coisa, mas isso não deve lhe impedir de reconhecer a relevância daquela coisa. Salvo então os casos onde vem a externar os gostos da pessoa (o que você gosta ou não), a opinião é uma forma desleixada de se explicar as coisas, é preguiça mental, se você diz de algo e no que diz leva o espírito científico, ai já não é mais opinião, mas sim o pensamento concretamente mais próximo da verdade.

E nesse meio termo, entre a opinião interesseira e a verdade profunda, é melhor não se apressar em qualquer julgamento, para que com o tempo e esforço você possa revelar a si mesmo sua visão ignorante e tendenciosa das coisa e superá-la, para num segundo momento seguir a verdade. Se serve um conselho: retire as obviedade das coisas óbvias, quer dizer, repense compulsivamente tudo aquilo que você tem como certo, tente fundamentar as obviedades fugindo dos seus interesses pessoais e buscando a verdade, ela e nada mais.

O oposto de uma afirmação correta é uma afirmação falsa. Mas o oposto de uma verdade profunda pode muito bem ser outra verdade profunda.“―Niels Bohr

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