O mundo precisa dos trouxas

O que vem a seguir se propõe a ilustrar e exemplificar um comportamento bastante disseminado em nossas vidas. Buscando entender  como se dão nossas interações e com uma análise das nossas ações diárias que se pretende de sensibilidade razoável, podemos perceber as influências e erros que, comumente, passam despercebidos no processo de ser humano.

Quando falamos de nosso papel no mundo, como seres humanos, falamos das diversas possibilidades de se atuar no meio em que vivemos. Um papel ou uma função são estabelecidos segundo objetivos específicos para uma finalidade específica. Neste texto pretendemos falar do papel do “trouxa” e sua presença crucial na vida em sociedade. O trouxa aqui utilizado está relacionado a figura popularmente difundida, ou seja, aquele que prefere sofrer uma injustiça do que causar uma injustiça, que prefere ser prejudicado que prejudicar. Um comportamento extremamente oposto ao dos nossos políticos e ao famigerado jeitinho brasileiro, tão bem praticado por todos nós. Esclarecendo melhor, numa situação em que o sujeito dispõe de duas alternativas: a primeira seria quela em que todos os indivíduos atingidos pela ação do sujeito se beneficiem de forma igualitária e, a segunda, seria aquela em que o beneficiamento desses indivíduos se dá de forma desbalanceada, de modo que o sujeito que comete a ação seja favorecido. O trouxa seria o sujeito que opta pela primeira opção, a de equilibrar os ganhos, este é usualmente tido como trouxa por não tirar proveito da situação, é essa a figura que devemos ter em mente durante o texto.

Vejamos os juízos a seguir: “É melhor ser gentil que grosso” e “Um homem honesto é melhor que um homem corrupto”. Ao lermos essas duas frases, elas penetram intuitivamente nas nossas mentes e, de imediato, são aceitas como corretas por todos. Em geral, quando se tem uma noção mínima de interpretação de texto e uma estrutura cerebral que permita ser reflexivo, deve ser fácil compreender o caráter universal dessas frases acima apontadas. Mesmo o mais corrupto vigarista ou o mais maldoso assassino compreende que as ideias que estão ali embutidas, se seguidas por todos, tem como conclusão um ambiente melhor de se viver. Então, de onde vem a grosseria?

De onde vem a grosseria?

Ora, todos sabem e entendem que ser bom, benevolente, carinhoso, cuidadoso e etc… é a forma mais prudente de se viver e, prudência, já pressupõe um modo de vida melhor que o vivido de qualquer outra forma.

Parece realmente que isso é verdade, então, a questão é a seguinte: o que explica a conduta contrária a essa vida gentil?

Podemos começar entendendo o que buscam qualquer homem e mulher vivos. Parece meio óbvio quando se investiga de uma forma que não precisa ser tão criteriosa, que o fim do ser humano é ser feliz no sentido mais comum, uma vez que todos querem saciar seus desejos, conquistar seus amores, acalentar seus males, atingir o prazer nas várias formas que os sentidos e sentimentos podem desfrutar, enfim, ser feliz. Isso nos leva a uma visão mais ampla da vida como um todo, de uma regra biológica da busca por recursos e de perpetuação da espécie. Seria estranho que a natureza não criasse mecanismos psicológicos que ajudassem ou auxiliassem o ser humano a buscar meios de prover suas necessidades de sobrevivência. Esses mecanismos se expressam na forma do prazer, ou seja, se há algo que você faça que traga prazer, isso se deve ao fato de que você é originalmente programado para sentir-se assim diante dessa ocasião. Parece que tudo pode ser reduzido a um reflexo desses processos evolutivos que guiaram o desenvolvimento das nossas funções fisiológicas. Porém, na vida humana, os prazeres se difundiram em milhares. Com nossas necessidades básicas facilmente superadas pelo desenvolvimento das tecnologias, nos sobra tempo e espaço para a criação de novos objetivos, novas necessidade e as tentativas de cumpri-los.

O caso é que mesmo vendo nossa construção histórica de um novo estilo de vida, digamos, mais humano e menos “animal”, podemos presenciar ainda algo de muito primitivo nos nosso comportamentos diários. Como já expresso aqui no blog no texto O ser evoluído – dos mares aos navegadores. Isso que resta em todos nós é uma sede por recursos que nos põe sempre em posições de competição que hoje se multiplicaram, assim como nossas formas de interação com o meio e com os outros. Dessa mesma forma, multiplicaram-se também as zonas de embate. O que antes se dava por territórios e recursos ali presentes, se transferiu para as mais diversas atividades humanas.

Daí, possivelmente, vem a explicação para a conduta contrária a dita gentil em grande parte da vida humana. Mas espera aí, se é melhor ser gentil, por que me deixo ser grosso, ignorante ou egoísta? O que acontece com nossa perspectiva da vida em razão do bem e da felicidade, já que ser grosso, ignorante ou egoísta são claramente comportamentos que refletem negativamente nos nossos objetivos de bem e de felicidade?

É justamente essa coisa primitiva que ainda nos conecta com nossos irmão da selva, que se mostra quando não estamos atentos, e revela nossa falta de gentileza. Sim, ao que parece os nossos ancestrais peludos  não sabem o que é gentileza, eles agem por impulso, por uma questão de sobrevivência. Assim como os demais primatas (nossos ancestrais dos quais herdamos as bases genéticas e, consequentemente, algumas características individuais e sociais) nós, e outros diversos seres vivos, temos cravado em nossos genes o comportamento comunitário. O ser humano deve ser um pouco diferente, pois somos capazes (apesar de demonstramos o contrário) de controlar nossos instintos e refletir sobre nossas ações, controlando-as e guiando-as conforme desejamos. Apesar de ainda me restarem algumas dúvidas sobre a essa capacidade de suprimir nossos instintos², vamos dizer que seja assim.

Assim, a razão se estabeleceu sobre os seres humanos. Ela nos deu a chance de fugir dos caminhos da competição primitiva e adentrarmos ao caminho da gentileza. Apesar disso, é possível ao homem abstrair à razão, deixá-la de lado e seguir o caminho do que vem de imediato, ou o pensamento que se estabelece diante do uso insuficiente da razão.

O que existe é um eterno embate entre a necessidade de garantir recursos para si e a outra necessidade de  manter em funcionamento a comunidade que é morada e proteção do homem. Mas, como aponta Tomas de Aquino, aquilo  que pode solucionar nossas discussões, só pode estar no que nos assemelha, ou seja, a razão.

Por que devo ser Gentil?

Bem, que homens sábios são melhores que tolos, isso todos devem concordar também, mas por quê? Porquê homens sábios são aqueles que utilizam da razão até mesmo quando o que estão vendo parece-lhes óbvio num primeiro momento. A investigação da obviedade atribui aos homens sábios um carinho maior sobre todos os seus atos, garantindo um sucesso maior tanto das suas análises e reflexões quanto das suas ações diante do mundo. Precisamos entender então se é mais sábio ser gentil.

Imagine uma situação em que você tem a possibilidade de escolher entre sofrer uma injustiça ou causar uma injustiça, havendo apenas essas duas alternativas, qual você escolheria? Bem, creio que grande parte de vocês possam dizer, por alto, que prefeririam sofrer do que causar uma injustiça, mas é bem fácil falar quando estamos num ponto de abstração. O que você faz nos casos reais do cotidiano? Acha que durante sua vida foi mais trouxa ou mais picareta? Já você, que prefere realmente causar uma injustiça, vamos fazer uma reflexão:

Vamos tentar por um exemplo de situação onde essa escolha pode ser necessária. Digamos que você esteja discutindo com alguém calorosamente, e em certo ponto da conversa a outra pessoa perde as estribeiras e passa a tentar atingir você com palavrões e acusações claramente sem cabimento, ou tenta te prejudicar de qualquer forma possível. Você dispararia de volta xingamentos e tentaria atingir a honra dessa pessoa, ou ouviria tudo e tentaria contornar a situação acalmando a discussão?

O caso é que a grande maioria das pessoas está disposta a fazer a primeira coisa que vem a cabeça, que é, se proteger, sair da posição de “inferioridade”. E a primeira forma de proteção que também vem na cabeça é atacar! É uma base primitiva do comportamento animal, a primeira coisa que nos vem a mente é revidar. Mas, essa atitude faz sentido? Bem, retirando os casos em que é necessário que se revide por questão de vida ou morte, os demais casos se tornam uma perda de energia ou puro capricho. O que na verdade é tido como inferioridade, trata-se de uma situação em que a pessoa se vê rebaixada ou ofendida de alguma forma. Mas o que causa esse mal estar? Ora, se alguém sente desconforto por estar numa posição em que é subjugado, isso só pode ter a ver com o que foi esclarecido acima no texto, que, o que te traz prazer é aquilo que tem valor na sua provisão de recursos, logo, o que traz desconforto é aquilo que induz uma situação não favorável no que diz respeito a essa provisão, e, ser aquele que controla a situação por meio da agressão te dá maiores chances de angariar insumos. Mas pera ai, é fácil reconhecer que a maior parte dos conflitos diários que temos num centro urbano não se dão propriamente por recursos. Podemos ver que apesar de não serem necessários, tais embates ainda permeiam a sociedade devido a um descuido com o que trazemos de primitivos nas nossas estruturas cerebrais. Alguns podem vir a dizer que tiveram o orgulho ferido, que atacam o outro, no caso aqui abordado, por que não podem levar desaforo pra casa. Claro! o que devemos entender é que esses são os caminhos da natureza para significar a tomada de ação que gera maiores chances de se dar bem numa competição (do ponto de vista individual). Mas esse significado já não vale mais, e apesar disso ele teve uma translocação de sentido, passou de comportamento primitivo (competição) para orgulho ferido, o velho “não levar desaforo pra casa”.

Mas já não havíamos concordado que ser gentil é melhor que ser grosso? O que mudou?

Ser gentil é bom e tem por finalidade o bem, e este, visa a felicidade. Por que então nos deixaríamos atingir pelo estado primitivo de agressão se este parece estar necessariamente conectado ao caminho do mal e, consequentemente, da infelicidade? O que deu em você cidadão?

Vamos lá, você foi tratado mal, por que trataria o outro bem?

Alguém poderia dizer que, “tratar bem alguém que nos trata mal é uma injustiça, a pessoa deve aprender que tudo tem um troco”. Mas e você? Por que trataria alguém mal se isso como já diz o nome, é algo ruim? Você não merece tratar os outros bem? Ora, se é bem, só pode ser bom. Ok, nem tudo que faz bem é bom, mas no nosso caso, ninguém há de concordar que por-se num estado de fúria seja melhor que o estado de tranquilidade. Você  busca o bem, você busca a felicidade, você merece tratar os outros bem! compreende?

Kant pode nos ajudar um pouco a entender isso com o seu imperativo categórico e a Lei Universal: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal.” Imaginem então, um mundo onde só existam os picaretas, sabichões e adeptos do jeitinho brasileiro. Quem iria querer viver num mundo como esse? Agora imagine um mundo dos trouxas no sentido aqui referido, um mundo onde todos se esforcem para que as relações se deem de forma que ninguém saia perdendo, que tentemos controlar nossas ações de modo que sejam nivelados seus fins individuais e sociais.

Todos queremos um mundo melhor, todos vamos dormir de noite tentando encontrar alguma forma de nos termos como decentes. Mas só há uma forma de se conquistar essa perspectiva maior de desapego as tempestades internas. Sócrates falava sobre isso com o conhecido conhece-te a ti mesmo. Ele se refere a um conhecer da alma, cuidar da alma. Isso significa que, pela reflexão eu sou capaz de mergulhar em mim mesmo, conhecer minhas “bestas” (os elementos mais primitivos, ou não cognitivos). Quando você é racional, você só erra pela ignorância. A razão tende para o bem, e se há o mal, ele parte da retomada dos instintos, da ignorância do homem. Mas para aprender o que é o bem (razão) é preciso que se conheça a si mesmo. A paz, o equilíbrio e a temperança vem do controle das ignorâncias. O homem realiza-se dessa forma, tornando-se livre dos desejos, dos instintos de competição que transformam nossas ações, no jeitinho brasileiro  e nos demais jeitinhos de resolver problemas.

Por isso que eu prefiro ser o trouxa que o picareta (claro que não podemos pensar no trouxa aqui abordado, como aquele que aceita todos os tipos de injúrias de forma passiva, isso já foi esclarecido no início do texto) ou ser tratado mal e, como moeda de troca, tratar o outro bem. Por que, afinal, é isso que eu estou procurando. Não posso, por mais que me venham os pensamentos da agressividade e da defesa, abdicar do meu caminho  para obter a paz interior e ter o que mereço. Não posso controlar os que vivem a minha volta, só posso dar para o mundo aquilo que quero que ele me dê em troca.

egoista

De outra forma, deve-se entender aquele que age de forma agressiva, egoísta, etc, como alguém que ainda não supera seus instintos centrípetos primários, ou seja, como uma criança que ainda não tem noção das suas ações, deve ser tratada como tal, e a melhor maneira de lidar com uma criança é servindo-lhe de exemplos.

Pode fazer o teste em casa, ou em qualquer meio que haja interação entre humanos. Eu chamo de “raio do amor”, se alguém te tratar mal, com ignorância ou for egoísta, faça o bem, derrame gentileza e bondade, e espere para ver o resultado. Pode ser difícil no início, mas ninguém resiste. Aquele que está habituado a ser agressivo, está consequentemente preparado para ser atacado. Surpreenda-os, seja bom, seja Trouxa!

papel de trouxa

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