O Grande Problema: quem está empurrando os limites da humanidade?

No texto passado “Um Problema: poderíamos ser melhores?” falamos sobre um grande problema que se estabelece no excesso de preguiça observado diariamente o que, poderíamos dizer, se encontra na vida simples e sem maiores pretensões. O caso é que temos um potencial enorme de capacidades, habilidades e conhecimentos que, em geral, poderíamos desenvolver caso buscássemos nos desenvolver com a devida disposição. Porém, tal disposição é vista em seus níveis mais elevados somente numa pequena parcela da população mundial. Aqui, pretendemos justamente apontar o caminho para o qual tal comprometimento se encaminharia. Apontamos que se estivéssemos comprometidos com o nosso aprimoramento estaríamos, ao mesmo tempo, todos dispostos a empurrar os limites da humanidade.

Mas para chegar onde realmente queremos devemos retomar Aristóteles e sua perspectiva de finalidade segundo o Bem. Para o filósofo, toda atividade tem uma finalidade, que seria a de ser BEM realizada, e esse fazer bem leva ao sumo bem, ou seja, a finalidade de todas as ações, que seria felicidade. Todavia, não entenda essa felicidade da maneira usual, para compreendê-la devemos pensar mais ou menos como a utilizamos na frase “você foi feliz no que disse”, isso quer dizer que a pessoa foi bem-sucedida em algo que falou, o mesmo vale para as atividades. Mas resgatamos Aristóteles também por outro motivo, pela sua investigação sobre qual seria o fim último da atividade humana. Não me prolongo no discurso e digo logo, essa seria o bom uso da razão segundo as virtudes. Ora, diria Aristóteles, a atividade do homem vem daquilo que é pertinente ao próprio homem, aquilo que ele tem de excepcional e diferente de todo o resto da vida que é a razão. O Bem do homem, a atividade que ele realizaria para cumprir de forma apropriada com sua finalidade, é justamente o uso da razão.

É essa razão que queremos utilizar agora para estabelecer um princípio bastante pretensioso: Qual seria então a suma atividade do homem levado pela razão? ou, qual a atividade de excelência podemos apontar quando a procuramos com a razão? E, Trazendo para o contexto do que foi dito no texto passado: Quais atividades um homem teria vontade de realizar se desenvolvesse em si as diversas capacidades e habilidades que um homem possui por natureza? Nossa resposta é que essas atividades seriam aquelas que alargariam os limites da humanidade. Explico.

A explicação recorre a outro filósofo chamado Hans Jonas e sua reformulação do imperativo categórico kantiano. Tal imperativo, para Kant, seria um princípio fundamentador de todas as nossas ações e que permitiria dar-lhes um suporte ético, uma lei formulada, em termos kantianos, da seguinte maneira: Age de tal modo que as máximas de tuas ações possam ser universalizas. Jonas, na pretensão de fundar outro imperativo, que  seria muito mais imediato, modifica o imperativo categórico que ficaria mais ou menos assim: Age de forma tal que tuas ações não comprometam as gerações futuras. Ora, diria Jonas para Kant, só existe ética enquanto existir humanidade, sendo assim,  se não temos em nossas ações o princípio primeiro de prezar pela própria existência da  humanidade acima de tudo, caso ela venha a ser destruída, não teremos mais motivos para qualquer imperativo, seja lá qual for.

É essa ideia que queremos tomar aqui, a que deveria ser a mais básica de todas, o princípio ético que sustenta qualquer princípio moral, aquele que normatiza nossas ações de modo que esteja implícito em todas elas a necessidade de manutenção da própria vida humana. Dessa forma, pegamos de Aristóteles a ideia do uso da razão como princípio basilar da atividade humana visando o BEM ser um ser humano, e de Jonas, a racionalização de um pensamento sem o qual não seria possível os demais pensamentos. Mas ainda chegamos na metade do problema da tentativa de se entender qual é a suma atividade humana formulada pela razão.

É racional à razão extinguir a si mesma?

O ser humano gera problemas sejam eles triviais ou complexos, tais problemas, quando bem formulados pela razão, podem também ser respondidos pela razão. O ser humano, como um ser problematizador e racional, jamais vai se desvencilha dessas atividades. Há então uma relação necessária: humano-problema-razão.

Sendo assim, podemos nos perguntar: Qual é o maior de todos os problemas? Ou, formulando o problema como Jonas: Qual o problema sem o qual nenhum outro problema é possível? Ora, é o desafio de manter viva a capacidade de problematizar, ou seja, o desafio de manter vivos os seres humanos, os problematizadores. Qual é a razão de todas as razões, aquela sem a qual nenhuma outra razão é possível? Ora, essa é a razão que dá conta do desafio de manter viva a capacidade de raciocinar, ou seja, a manutenção dos seres humanos, os racionais.

Uma vida humana plena é aquela em que essas características humanas são exercitadas e, não apenas isso. Como um ser que gera problema e que raciocina, a suma atividade humana é cuidar para que a humanidade siga existindo, que é o problema dos problemas e a razão das razões.

Pense num entrave que possa desafiar a existência humana, qualquer um possível: aquecimento global, devastação da biodiversidade, doenças, pobreza, falta de condições básicas de saúde, etc. A atividade humana, problematizadora e racional, deve esforçar-se para pensar e produzir alguma solução. Quando falo de atividade humana, obviamente, estou me referindo também a você caro(a) leitor(a). Esse seria o trabalho da razão ao buscar o Bem do homem, sua atividade quando sumamente bem-sucedida.

Como sabemos, a terra é um local com muitos problemas, isso envolve as condições precárias que grande parte dos seres humanos se encontram nesse momento. Para que um cuidado a nível mundial se estabeleça precisamos, sem dúvida, que o maior número possível de pessoas estejam engajados nessa missão. Mas o problema é justamente que essa precariedade, seja ela geradas das condições de sobrevivência em que muitos estão dispostos ou até do distanciamento que vemos no próprio modo de agir humano que, na cultura atual, se mostra pouco envolvido, de modo geral, na ampliação das suas capacidades, habilidades e conhecimentos. Claro que há alguma evolução da humanidade em algum nível, mas frente a quantidade de seres, podemos apontar, são apenas alguns que estão na ponta da lança, aqueles mais engajados responsáveis pelas grandes mudanças. A grande massa mesmo não está lá tão envolvida assim em aprimorar-se.

Outra coisa é de suma importância na nossa reflexão: nossa relação com a natureza. Veja, se temos a humanidade como o fim de nossas preocupações a natureza é, sem dúvida, um ponto crucial para nossa sobrevivência, um foco de importância inarredável. Agora, se a natureza é nosso foco principal, então, sabendo de todos os problemas que podemos causá-la, temos como melhor solução para nosso objetivo em questão a extinção da humanidade. Desse modo, a única maneira de natureza e humanidade existirem ao mesmo tempo de modo equilibrado, é que tenhamos a humanidade como fim último.

Quem está disposto a empurrar os limites da humanidade?

A grande maioria das pessoas no mundo vivem suas vidas de modo trivial, sem preocupações que se distanciem das suas circunstâncias cotidianas e, dessa forma, não desenvolvem nas suas capacidades tanto quanto poderiam quando exigidas à excelência. O caso é que dentro desse espectro de capacidades humanas podemos perceber um desperdício grande quando tais capacidades não são desenvolvidas como poderiam. Quando me refiro a uma vida humana em sua excelência, quero falar sobre um tipo de vida na qual há o aperfeiçoamento daquelas habilidades propiciadoras das possibilidade de realização daquelas atividades que têm como foco avançar os limites do conhecimento, da informação, do desenvolvimento de novas tecnologia, da expansão do espaço alcançado pelo homem, etc. O que não desconsidera o devido cuidado com a natureza, pelo contrário, só com esse processo de aprimoramento seria possível disseminar a conscientização sobre a importância da preservação e uso sustentável dos recursos naturais.

Podemos concluir então que o princípio racional essencial par a ação humana é aquele que tem a humanidade como fim. Racional porque não existiria princípio algum para a ação humana se não fossem sustentadas as condições da existência da vida humana. Mas para que a noção de humanidade como fim seja disseminada por todos, é preciso que hajam condições favoráveis. Dessa forma, podemos formular a ação que é meio essencial para o fim que apontamos acima, aquela que permitiria as condições para tal fim: uma atividade intermediária que nos possibilitaria fazer da humanidade uma comunidade de seres que trabalham pela própria manutenção. É a atividade de tornar possível as circunstâncias em que um ser humano pode se aprimorar o quanto for possível para o fim da manutenção da nossa espécie.

Pensemos bem sobre toda vastidão do universo e sobre a insignificância da espécie humana diante disso tudo. Milhares de nós já passaram pela história e se foram sem deixar rastros. Toda uma consciência com possibilidades de construção incríveis, mas muitos poucos foram os que realmente fizeram alguma diferença. Se estamos aqui vivos, mas um certo dia perderemos nossas funções vitais, de que maneira poderíamos tornar nossa existência mais significativa? Penso que isso se daria através da participação no processo histórico de avançar os limites da humanidade nos seus vários aspectos sociais, científicos, filosóficos, atléticos, artísticos, etc. Qualquer outra forma de viver a vida é pouco. O maior objetivo de todas as ações deveria ser o ponto focal da existência de todos os indivíduos que estão em plenas condições para isso.

Quando falamos do maior objetivo, falamos da manutenção da vida humana no universo e, para cumprir tal tarefa, devemos superar várias barreiras que impedem nosso desenvolvimento, o que envolve, com certeza, um repúdio a ignorância e a exaltação do conhecimento reflexivo, a fuga do charlatanismo e das mentiras, a busca pela comprovação dos fatos e do discurso democrático na construção de aparatos sociais e culturais. Estaria fora de cogitação qualquer forma de preconceito, de violência, discriminação e qualquer espécie de desenvolvimento que abusasse de maneira insustentável dos recursos naturais. Tudo teria que girar em torno, única e exclusivamente, do melhoramento do ser humano naquelas capacidades que tem total influência na manutenção e aprimoramento da vida, seja humana ou não, pois toda vida tem sua importante dentro do circuíto maior que existe num processo contínuo de equilíbrio. Cada indivíduo, no fim desse processo, constituiria a pedra de toque de um processo longo e amplo que perduraria o tempo do próprio resto do tempo. Seríamos exploradores, investigadores, críticos, viajantes interplanetários, pois a humanidade é, para nós, tudo que importa, e não há problema mais importante.

Fiquem com o vídeo do sempre recomendado In a Nutshell:

 

 

 

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